
Retratos do artista quando jovem
Por Manuela Colla, Jornalista
"Prestem atenção neste nome: Filipe Catto. Com uma voz especial e repertório personalíssimo, ele ameaça reiventar a música popular "
No coração da Cidade Baixa, Rua da República, um saxofonista está na esquina, tocando sozinho. São seis horas da manhã. Um guri se aproxima para escutar e, ao final de uma música, pergunta: “Tu sabes tocar Summertime’?”. “Sei”. “Então toca em dó menor porque eu queria cantar”, diz. O garoto então solta a voz na rua, canta para três pessoas, canta para o bar vazio, para os amigos, para quem quiser ouvir. O amor que sente por isso é o que o move. E, também, a imensa vontade de ser ouvido.
Parece cena de novela, mas não é. O guri em questão tem nome: é Filipe Catto, 21 anos, cantor e compositor – apontado por boa parte da crítica especializada como uma das maiores revelações da música nos últimos anos. Revelação, entretanto, só para o mercado: o artista sabe muito bem o que é entregar flyers em mesas de bar, pedir espaço na mídia e levantar peso nas centenas de horas que envolvem a produção de um espetáculo com a ajuda dos amigos. “Ser artista de MPB sem apoio de gravadora, em Porto Alegre, é matar um leão por dia”, afirma o músico.
Filipe canta desde criança, acompanhando o pai Oscar em formaturas, casamentos, o que aparecesse – era uma daquelas crianças prodígio. Uma de suas memórias mais marcantes dessa época foi quando, aos 12 anos, cantando numa formatura no Teatro do Sesi, esqueceu um trecho do hino nacional. Aprendeu, ali, a errar do jeito certo: esperou até o momento em que lembrou a letra e engatou para a frente. “Quando tu estás no palco, ou te entregas com toda a alma ou tens medo e vai embora. Eu escolhi dar a cara à tapa, sempre. O único erro é desistir, e isso nunca aconteceu comigo. Eu sempre quis viver de música”, diz, com olhos repletos de convicção de quem sabe o que é esta saga.
Palavra, aliás, que batiza o primeiro registro em CD de seu trabalho. Dos discos de vinil do pai, herdou o amor por Elis Regina, Janis Joplin, Joe Cocker. Sempre adorou ler e escrever. Adolescente, descobriu Hilda Hist e Caio Fernando Abreu e começou a escrever letras e compor melodias, participando de bandas de rock. Na época, não gostava do seu timbre de voz, que mudou com a chegada da adolescência. Cantava sempre baixinho. Nessa época, absorveu influências como Cat Power, PJ Harvey e Portishead. Hoje, sua voz é mais aguda do que era na infância: Catto é um contra tenor, timbre de voz raro entre os homens. Especialmente na MPB.
Em 2005, ainda cantando baixinho, foi convidado por Katia Suman e Frank Jorge a participar do Sarau Elétrico. Foi um divisor de águas na sua vida profissional. Uma noite, enquanto cantava, percebeu que as pessoas continuavam conversando. Pensou, então, que diante daquela indiferença poderia cantar suas próprias músicas. E cantou. E as pessoas começaram a escutar as composições de Filipe ali. “Percebi que havia público para as minhas canções”, espanta-se. Em 2007, seguiu fazendo shows em bares, gravações em casa e começou a disponibilizar arquivos no Myspace para download.
Retrocedeu nas suas influências musicais até a raiz e voltou a ouvir os discos do pai e a escrever músicas como um contador de histórias. “Eu falo da minha vida de forma inconfessável nas minhas letras. As pessoas podem se identificar com isso porque todo mundo já foi traído, humilhado, todo mundo já sentiu saudades”, explica. São essas canções, confessionais na maioria das vezes, que compõem Saga. A maioria delas produzidas depois de uma temporada morando em Nova Iorque e do primeiro show, realizado com o diretor João Pedro Madureira, em 2008. Ouro e Pétala, formado de voz, violão e palmas, foi apresentado no teatro Hebraica, em julho e agosto, com sucesso de público. Seis meses depois, uma temporada de Saga – Violão e Vísceras no Espaço Ox trouxe rostos desconhecidos à plateia.
Todo tipo de som
A gravação de Saga teve acréscimo do produtor musical Sérgio Guidoux. A partir da parceria, Filipe enriqueceu seu processo criativo em relação a arranjos, abordagem e uso de instrumentos diferentes – o produtor trabalha há anos com sonoplastia de filmes. No CD é possível escutar todo tipo de som: panelas, ralador de queijo, copo com gelo, leque, bandolim, cello, palmas, madeira batendo no chão. O disco foi inteiramente gravado em fitas analógicas e mixado por Guidoux em Londres, durante os primeiros meses de 2009. “Só usamos instrumentos antigos e a voz não foi retocada na produção. A gravação de bateria, baixo e violão foram feitas ao vivo, no estúdio, para que o som ficasse mais orgânico”, explica o cantor. Quando Guidoux foi para Londres, a troca de e-mails com arquivos do disco em mp3 foi intensa até que as músicas soassem exatamente como eles queriam. “Certas canções te pedem coisas, por isso trabalhamos com humildade e sem ego. Queríamos fazer algo dinâmico, diferente”, diz o cantor. O resultado nota-se no disco: há samba, tango, música de fossa, letras passionais e uma sonoridade rica.
Saga está disponível para download gratuito no site do artista (www.filipecatto.com.br) – resultado da imensa vontade que ele tem de ser ouvido. “Pensei no alcance que a internet te dá. Muitos dos downloads do CD são de países como México, Bélgica, Argentina, Estados Unidos”, diz. Para ele, disponibilizar o download gratuito na rede foi uma forma de investimento e de troca. E a possibilidade, real, de poder mostrar um pouco do seu trabalho – e de si mesmo – através das músicas do CD. “Uma menina de Goiânia postou um vídeo no YouTube cantando uma música minha”, orgulha-se. Além disso, o Jornal do Brasil “descobriu” Filipe Catto pela rede. Resultado: reportagem de uma página, a glória para quem precisa matar um leão por dia.
Com uma musicalidade diferente e própria, Filipe não teve medo de se colocar inteiro num disco – além do mais, gratuito. Se isso não for generosidade, ensinem-me uma definição me-lhor para esta palavra.